Ultrassom transvaginal para rastrear câncer: um exame desnecessário e perigoso

agosto 20, 2012 em BLOG por Sven Schuster

A ultrassonografia transvaginal não reduz o risco de morrer de câncer. Pelo contrário, na maneira como este procedimento é praticado hoje em dia no Brasil, pode ser um perigo para a saúde da mulher.

Eu viajo frequentemente ao Brasil, onde estou passando boa parte do ano para pesquisa acadêmica. Adoro o país e os seus habitantes e, diferentemente da maioria dos estrangeiros, tento entender como a sociedade brasileira chegou a ser esta amálgama única de histórias e culturas de vários continentes. Ou seja, tenho uma ideia da “brasilidade” muito além dos estereótipos de samba, futebol e praia. O Brasil, para mim, é um paraíso de dimensões míticas. Apesar disso, onde se tem muita luz, também se vê sombra.

Quando minha namorada brasileira um dia me contou que, ao fazer o exame ginecológico regular, a médica lhe recomendou também uma ultrassonografia transvaginal, eu fiquei um pouco irritado. Eu lhe perguntei se isso era indicado no caso de pacientes de alto risco ou para aquelas que tivessem antecedentes de câncer de ovário na família. Para minha surpresa, ela afirmou que este não era seu caso. O procedimento simplesmente foi realizado de maneira “preventiva”. Tratava-se de um exame de rastreamento. Na verdade, eu não fiquei chocado pelo uso do ultrassom transvaginal em si, pois este método, devido a sua alta resolução da imagem em comparação com a ultrassonografia tradicional, pode ser considerado muito útil para a diagnose de mulheres grávidas ou com sintomas de alguma doença ginecológica, como miomas ou cistos, tal como para exames dos ovários em pacientes de alto risco. Entretanto, este não era o caso.

Na Alemanha, ao contrário, é bem conhecido que o ultrassom transvaginal não deve ser usado desta maneira despreocupada com fins “preventivos”. É por isso que o seguro obrigatório de saúde não paga este procedimento e as entidades médicas oficiais o consideram desnecessário e, inclusive, perigoso. Segundo o Instituto Alemão de Controle de Produtos e Serviços, o beneficio médico deste exame é “quase nulo”, mas os possíveis danos podem ser “consideráveis”. O Serviço Médico dos Seguros de Saúde, por exemplo, não recomenda seu uso para mulheres da “população média”, ou seja, mulheres saudáveis sem sintomas. Sua aplicação seria, porém, indicada caso o exame ginecológico manual mostre alguma anomalia. Do mesmo modo, o Instituto Alemão de Documentação e Informação Médica do Ministério de Saúde (DIMDI) constata que não tem nenhuma evidencia científica que possa justificar este procedimento como exame de rastreamento.

Ao inverso, devido aos frequentes falsos positivos e devido ao pânico que pode causar um diagnóstico errado numa mulher, sem falar das possíveis operações desnecessárias, a ultrassonografia transvaginal “preventiva” é qualificada como um tratamento “negativo”. Os médicos que a oferecem nos seus sites, na contramão das orientações oficiais, ou seja, vendendo o exame como se fosse um serviço particular para a “prevenção do câncer”, são advertidos pela Associação de Proteção ao Consumidor, a ponto de precisarem retirar estes anúncios sob pena de processo jurídico. Por isso, nenhuma organização profissional médica da Alemanha recomenda atualmente este exame para prevenir câncer de ovário ou câncer endometrial, devido aos resultados assustadores de quatro grandes estudos empíricos que foram realizados nos últimos anos na Europa, no Japão e nos EUA.

Nos EUA, tanto a Associação de Ginecologia e Obstetrícia, como o Instituto Nacional de Câncer que aconselha o governo dos EUA, assim como todas as grandes instituições de pesquisa oncológica, rechaçam este método como forma de prevenir o câncer. Segundo a Aliança Nacional contra o Câncer de Ovário, os riscos provocados por falsos positivos não são menores, pois algumas mulheres já até morreram por causa de operações desnecessárias.

Isto tem a ver com o resultado de um estudo realizado pelo Insituto Nacional de Câncer (Prostate, Lung, Colorectal, and Ovarian Cancer Screening Trial, PLCO), publicado em 2011, onde é evidenciado que, até hoje, quase nenhuma mulher tenha se salvado do câncer graças à ultrassonografia transvaginal. Este estudo randomizado se fundamenta na base empírica mais completa até agora. Trata-se de uma pesquisa realizada com cerca de 78.000 voluntárias durante treze anos, ou seja, baseando-se numa mostra estatisticamente bastante significativa. No final do estudo, no entanto, o grupo das pacientes tratadas com ultrassom transvaginal obteve uma taxa de morte por câncer de ovário mais alta do que o grupo das mulheres tratadas com métodos convencionais (118/100)! O grande problema é que o câncer de ovário é um assassino silencioso e agressivo, sem ter muitas possibilidades de ser detectado num estado preliminar, caso exista estado preliminar. Convencer as mulheres que a ultrassonografia oferece uma espécie de “proteção” contra a doença é simplesmente uma mentira, além de ser absolutamente antiético, pois cria uma falsa ilusão de salubridade nas mesmas. Até hoje, a etiologia deste câncer é desconhecida, sua detecção e sua cura são difíceis.

Mas o que transforma o ultrassom transvaginal num perigo grave para muitas pacientes é a alta taxa de falsos alarmes que este método produz, como já os tinha mencionado antes. Segundo as pesquisas europeias e norte-americanas, a precisão do método é tão baixa que entre 8% e 12% das mulheres recebem resultados falsos positivos, e muitos tumores existentes simplesmente não são detectados, pois a tecnologia ainda não é suficientemente madura. É mais um aspecto assustador do estudo PLCO: em cada 100 mulheres, nas quais o ultrassom transvaginal encontrou uma anomalia, no final, só uma mulher foi diagnosticada com câncer de ovário. As outras 99 anomalias achadas eram, portanto, casos de sobrediagnóstico. De todo modo, um terço destas mulheres teve que se submeter a uma intervenção cirúrgica, e no caso de um sexto destas pacientes, em suas operações houve complicações graves.

Os responsáveis da pesquisa resumem os resultados da seguinte maneira: “Este estudo mostra que os testes disponíveis não são eficazes e podem realmente causar danos por causa do elevado número de falsos positivos. Estes resultados apontam para a necessidade contínua de ferramentas de rastreio mais precisas e eficazes.”

Depois de me aprofundar um pouco nesta matéria, eu fiz uma pequena pesquisa na internet para saber qual a opinião dos médicos brasileiros sobre o assunto. E desta vez o choque foi ainda maior! Não há praticamente nenhum site que esclareça, de maneira neutra, as limitações e riscos da ultrassonografia transvaginal. Pelo contrário, quase todos os sites de clínicas e consultórios enaltecem este exame como um excelente método para prevenir o câncer. Recomenda-se o seu uso em intervalos regulares para mulheres completamente saudáveis: Assim, no site www.oncoguia.org.br, podemos ler o seguinte: “O melhor método para avaliação periódica e preventiva do câncer de ovário é o ultrassom transvaginal, que é o exame que apresenta sensibilidade e especificidade para detectar o câncer ovariano.”

Além disso, não achei nenhum site que fizesse referência aos estudos empíricos dos EUA e da Europa, embora os resultados do estudo PLCO fossem amplamente divulgados nas revistas especializadas e na imprensa. Pergunto-me então: Por que acontece isto no Brasil? Como pode não haver nenhum tipo de reflexão crítica sobre o assunto? A ciência não é universal? Enquanto os médicos brasileiros parecem desconhecer os riscos deste método, na Alemanha, uma equipe de médicos contratada pelo Ministério de Saúde acaba de ganhar um prêmio por ter comprovado os perigos deste exame por meio da pesquisa empírica (Prêmio David Sackett por medicina baseada em evidência, 16 de março de 2012)! No reporte final do seu estudo, fica evidente que o exame traz mais malefícios do que benefícios para uma grande parte das mulheres, quando praticado de maneira “preventiva”. Os autores também recomendam aos médicos que fiquem mais cientes dos estudos empíricos, em vez de se orientar somente nas suas experiências práticas. Por último, exigem que as pacientes devam ser informadas de maneira transparente e imparcial sobre os riscos e limitações deste exame.

 

Principais resultados do estudo PLCO, The Journal of the American Medical Association, junho de 2011, versão livre em inglês:
http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=900666

Avaliação crítica dos riscos da USTV em caso de falso positivo (Harvard Medical School): http://www.health.harvard.edu/newsletters/Harvard_Womens_Health_Watch/2010/April/progress-report-on-ovarian-cancer-screening 

Estudo do Instituto Alemão de Controle de Serviços Médicos Individuais (alemão):
http://www.igel-monitor.de/Igel_A_Z.php?action=abstract&id=58

“Relatório HTA” do DIMDI (Instituto Alemão de Documentação e Informação Médica do Ministério de Saúde), ganhador do prêmio David Sackett por medicina baseada em evidência, março de 2012 (alemão):
http://portal.dimdi.de/de/hta/hta_berichte/hta280_bericht_de.pdf

“Porquê pedir ecografia pélvica ‘de rotina’? Rastreio combinado para cancro do ovário: nenhum benefício, só dano (falsos-positivos e excesso de cirurgias)”. Revista Portuguesa de Clínica Geral, v.27, n.4, Lisboa, julho de 2011:                                                                    http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/scielo.php?pid=S0870-71032011000400015&script=sci_arttext


Algumas opiniões e recomendações sobre o uso da ultrassonografia transvaginal (Alemanha, Brasil, Grã-Bretanha, EUA)

Ministério da Saúde, Alemanha:

“Num grande estudo do Instituto Alemão de Documentação e Informação Médica (DIMDI), verificou-se que o ultrassom transvaginal não ajuda na detecção precoce do câncer de ovário. O uso geral deste procedimento em mulheres assintomáticas não pode ser recomendado atualmente (diretriz S3). No entanto, o ultrassom transvaginal poderia ser útil no esclarecimento de achados suspeitos no exame ginecologico de rotina.”

Instituto Alemão de Controle de Serviços Médicos Individuais:

“Nós avaliamos a ultrassonografia dos ovários para o rastreio de câncer como ‘negativo’ […] Um grande estudo publicado em junho de 2011 confirmou o que outros estudos já sugeriram: com a ultrassonografia morre o mesmo número de mulheres do que sem ela. Este e outros estudos mostram que as mulheres muitas vezes são perturbadas desnecessariamente por falsos alarmes e, até mesmo, seus ovários são removidos sem razão.”

Ministério da Saúde, Brasil:

“Saúde da mulher:
No caso das mulheres, há sempre que verificar a situação do exame de Papanicolau (citopatológico de câncer de colo de útero) e do câncer de mama na faixa estipulada no diagramada linha do tempo. Fora essas duas intervenções, que estão consagradas na literatura e na prática médica como sendo custo-efetivas, outros exames se tornam desnecessários. Na mulher que está entrando em fase do climatério, há tendência a pesquisar problemas por meio dos exames mais variados: ultrassonografia transvaginal, dosagem hormonal (TSH, FSH, LH, estradiol), perfil lipídico e glicemia. Não há evidência para a realização da maioria desses exames. O que se percebe é um exagero no uso de ultrassonografia transvaginal em mulheres assintomáticas nesse período, intervenção esta sem fundamento em evidências científicas de boa qualidade. Não existe recomendação de rastreamento de câncer de ovário ou endométrio com ultrassonografia transvaginal até o presente momento.” (Diretrizes tomadas do Caderno de Atenção Primária, no. 29, “Rastreamento”)

Hospital Pérola Byington, São Paulo:

“Como rastrear, e diagnosticar o câncer do endométrio?
NÃO HÁ estudo custo-efetividade em saúde pública que justifique o rastreamento do câncer do endométrio na população de baixo risco. Também não há comprovação de benefício em relação ao ganho de sobrevida. O ultrassom transvaginal em mulheres assintomáticas possui sensibilidade e especificidade baixos, altos índices de falso-positivos, o que gera investigação complementar invasiva desnecessária e de alto custo. Portanto, NÃO SE DEVE SOLICITAR DE ROTINA O ULTRASSOM GINECOLÓGICO.”

“Como rastrear, como suspeitar e como diagnosticar o câncer do ovário?
Nenhuma Sociedade Oncológica no mundo recomenda rastreamento do câncer do ovário na população de baixo risco, uma vez que não há nenhum estudo de custo-efetividade randomizado que suporte esta proposta. O câncer do ovário é uma entidade rara, e normalmente seu diagnóstico é feito em estágios mais avançados da doença, sobretudo devido à sua rápida progressão.” (Diretrizes tomadas de http://www.hospitalperola.com.br/manual.pdf, 10 de novembro de 2012)

Revista Portuguesa de Clínica Geral

“Concluindo, à luz da melhor prova científica disponível, a ecografia pélvica “de rotina” não faz sentido. É importante relembrar que não existe prova científica robusta que sustente o rastreio de carcinoma do endométrio com ecografia pélvica. E, à luz do PLCO, o rastreio do cancro do ovário com ecografia pélvica e CA-125 [marcador tumoral] não traz benefício e está associado a dano: falsos-positivos, sobrediagnóstico e excesso de cirurgia.” (Revista Portuguesa de Clínica Geral, v.27, n.4, Lisboa, julho de 2011)

BMJ Evidence Center, Grã-Bretanha:

“Recomendações para a população assintomática:
Um exame pélvico anual e a elaboração cuidadosa do histórico familiar são as únicas modalidades de triagem recomendadas para a população assintomática. Até a data, a maioria dos testes de triagem, utilizando ultrassom transvaginal ou CA-125 para detectar câncer na fase inicial têm sido de fraca potência e demonstraram uma alta taxa de falsos positivos, levando a muitas cirurgias desnecessárias em mulheres assintomáticas. Os resultados do estudo de triagem UK Collaborative Trial of Ovarian Cancer Screening (UKCTOCS) demonstraram que a combinação de ultrassom com CA-125 melhora os resultados em comparação com ultrassom por si só, mas a estratégia ideal de rastreio ainda não é encontrada. Exames de rastreamento em pacientes assintomáticas não podem ser recomendados atualmente.”

National Cancer Institute (EUA):

“Detecção do câncer de ovário por meio de ultrassom: Não há evidência sólida indicando que a triagem de rotina para câncer de ovário com CA-125 e ultrassom transvaginal resulta numa diminuição da mortalidade por câncer de ovário. Pelo contrário, há evidência contundente indicando que os exames de rastreamento resultam num grande número de casos de sobrediagnóstico, laparoscopias e laparotomias.”

“Detecção do câncer do endométrio por meio de ultrassom: Não há estudos que comprovam que a triagem por ultrassom transvaginal diminui o número de mortes causadas por câncer endometrial.”

“O exame de triagem com ultrassom transvaginal NÃO é recomendado para mulheres assintomáticas da população média!”

“Best practice (uso recomendado nos casos seguintes):

  1. Analise do endométrio em mulheres com problemas de infertilidade ou que estão experimentando sangramento anormal
  2. Dores inexplicáveis
  3. Malformações congênitas dos ovários e do útero
  4. Cistos ovarianos e miomas
  5. Infecções pélvicas, tais como doença inflamatória pélvica
  6. Anormalidades da bexiga
  7. Um DIU extraviado (dispositivo intra-uterino)
  8. Outras causas de infertilidade
  9. Exames pré-natais”

 

EUA, 10 de setembro de 2012:

Confirmação das diretrizes sobre rastreamento do câncer de ovário pela United States Preventive Services Task Force (USPSTF):

“Não há na atualidade nenhum método de triagem para o câncer de ovário que é eficaz na redução de mortes […]. Uma grande percentagem de mulheres que se submetem às exames de triagem experimentam falsos positivos e, consequentemente, são submetidas a intervenções e cirurgias desnecessárias que podem causar danos consideráveis.”

Alguns comentários publicados na NY TIMES sobre a declaração da USPSTF:  http://www.nytimes.com/2012/09/11/health/research/ovarian-cancer-tests-are-ineffective-medical-panel-says.html?_r=0

“As associações de médicos, incluindo a Sociedade Americana de Câncer e a Associação Americana de Obstetras e Ginecologistas, estão desencorajando os exames para detectar o câncer de ovário há anos. Mas alguns médicos continuam a recomendar a triagem de qualquer maneira, e as pacientes solicitam este exame, agarrando-se à crença errada de que os testes podem de alguma forma encontrar a doença cedo o suficiente para salvar vidas.”

“‘Estamos alimentados pela esperança,’ a Dra. Moyer disse. ‘É uma doença tão terrível. Quase todo mundo conhece alguém quem teve isso, e isso significa que todo mundo conhece alguém que morreu por causa deste câncer. Você tem a sensação de que você deve fazer todo o possível para evitar esta doença, mas facilmente esquecemos que os nossos esforços para ‘prevenir’ o câncer podem na verdade piorar a situação.”

“A Dra. Saundra S. Buys, co-autora do estudo PLCO e professora de medicina do Instituto de Câncer Huntsman da Universidade de Utah, disse que, apesar da má notícia sobre os exames de rastreamento: ‘Eu acho que ainda está sendo feito. Eu acho que alguns médicos e muitas pacientes realmente se deixam seduzir pela possibilidade de que eles vão encontrar a doença numa fase precoce, e que podem salvar vidas.”

“A Dra. Barbara A. Goff, onco-ginecologista do Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle, e uma das autoras de um estudo do ano passado que foi realizado para saber porque alguns médicos ainda praticam este exame a pesar das indicações oficiais contrárias, disse: ‘Se as pacientes solicitam o exame, então eu acho que um monte de vezes os médicos sentem que é mais fácil e confortante encomendar o teste, principalmente se ele está coberto por um seguro de saúde, em vez de se tomar o tempo para explicar porque ele não serve para rastrear câncer, porque ele pode levar a cirurgias desnecessárias, e porque pode causar danos graves. Eu acho que eles muitas vezes nem pensam nas consequências.'”

“O Dr. Edward E. Partridge, diretor do Centro de Câncer da Universidade de Alabama, em Birmingham, outro autor do estudo PLCO, disse que mesmo se o teste fosse melhorado para reduzir os falsos positivos, ele ainda não serviria para salvar a vida das mulheres. Mesmo se os falsos positivos pudessem ser eliminados, a taxa de mortalidade do câncer seria a mesma, sem importar se as mulheres forem tratadas com ultrassom ou não, sugerindo que o teste simplesmente não pode encontrar o câncer cedo o suficiente para fazer uma diferença. ‘Você pode ajustá-lo tudo que você quiser, e ainda não vai poder melhorar os resultados’, disse o Dr. Partridge, agregando que ele também pensa que muitos médicos ainda recomendam o exame, apesar dos dados. ‘Eu acho que é muito importante que tanto o médico quanto o público realmente aprendam e interiorizem que este exame como ainda é praticado em alguns consultórios não é eficaz para reduzir as taxas de mortalidade de câncer de ovário. Temos que encontrar outra coisa.'”

Artigo na Revista VEJA

No dia 13 de setembro, a Revista VEJA publicou a seguinte matéria:

Testes para detectar câncer de ovário não são efetivos
Especialistas dizem que as técnicas de diagnóstico não reduzem mortalidade e podem levar a falsos positivos, expondo pacientes a cirurgias desnecessárias
(http://veja.abril.com.br/noticia/saude/testes-para-detectar-cancer-de-ovario-nao-sao-efetivos)

Sem dúvida, o Prof. Jesus Paula Carvalho da USP tem razão ao condenar o uso da ultrassonografia transvaginal como exame de rastreamento. Ele diz:

“Não existe nenhum método de diagnóstico precoce do câncer de ovário que seja recomendado. Não conheço nenhum país do mundo que recomende o teste de sangue e o ultrassom em mulheres saudáveis. Infelizmente, quando uma mulher nos pergunta se existe algum modo de detectar o câncer antes dele se espalhar, nossa resposta é negativa.”

Também é certo o que escreve o autor do artigo sobre a posição do Ministério da Saúde: “No Brasil, nenhum dos procedimentos é recomendado pelo Ministério da Saúde ou pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).”

Porém, não acho muito satisfatórios estes comentários porque a realidade no Brasil é bem diferente. Na verdade, é quase como se as diretrizes do Ministério da Saúde não existissem. De fato, outras recomendações do Ministério (como, por exemplo, subir o intervalo do teste Papanicolau de um a três anos, como acontece hoje em dia na maioria dos países “desenvolvidos” para reduzir a taxa de falsos positivos/negativos, sem que isso altere de alguma maneira a taxa de morte) também são ignoradas por uma grande parte dos médicos brasileiros.

Enfim, basta falar com as mulheres brasileiras para saber que o ultrassom transvaginal é usado frequentemente a modo de rastreio na população assintomática e sem histórico familiar de câncer, às vezes inclusive de maneira anual. Na maioria das vezes, os médicos explicam que se trata de um exame “preventivo” para detectar câncer, entre outras coisas. Dos falsos positivos e dos riscos de operações desnecessárias não falam. Claro!

Também é uma experiência interessante colocar as palavras “ultrassonografia transvaginal” e “mutirão” no google para ver notícias horrorosas como esta:

“12/05/2012: Mutirão de ultrassom ginecológico examinará mil mulheres. [O exame] detecta miomas, gestação e a existência de câncer. É um exame diagnóstico no qual é introduzido pela vagina um pequeno bastão em formato tubular envolto com preservativo (camisinha) e gel lubrificante que permite maior proximidade dos órgãos pélvicos e, portanto, melhor precisão.” (http://www.acontecebotucatu.com.br)

Como sabemos agora, o exame NÃO pode NEM deve detectar câncer porque NÃO se trata de um método “preciso”. Mas tais mutirões irresponsáveis são ainda bastante comuns no Brasil, e deixam ver a maneira despreocupada como este exame é usado em milhares de mulheres saudáveis de forma “gratuita”, como se elas fossem ratos de laboratório e os aparelhos uma espécie de brinquedo para médicos recém-formados. Tem muitas notícias deste tipo na internet, infelizmente.

Querem mais?
Aqui os resultados de uma breve pesquisa no google:

“Câncer de ovário. Prevenção: exames periódicos de ultrassonografia pélvica e transvaginal. O diagnóstico definitivo será feito por cirurgia.
Tratamento: Se detectada no início, a remoção de apenas um ovário já resolve. Já em estados avançados, são retirados os ovários, o útero e os linfonodos e estruturas ao redor. Pode ser necessária complementação do tratamento com quimioterapia.” (http://delas.ig.com.br)

“O melhor método para avaliação periódica e preventiva do câncer de ovário é o ultra-som transvaginal, que é o exame que apresenta sensibilidade e especificidade para detectar o câncer ovariano.” (http://www.oncoguia.com.br)

“A ultrassonografia transvaginal anual a partir dos 25 anos tem sido o método sugerido para detecção de câncer de ovário.”(http://www.prevencaodecancer.com.br)

“É um exame médico inócuo e seguro, usado para reproduzir a imagem de órgãos internos, tecidos, rede vascular e fluxo sanguíneo […] Pode detectar mioma e câncer, assim como em caso de gestação pode ser útil para detecção e acompanhamento da gestação.” (http://www.pacientesonline.com.br)

A ultra-sonografia transvaginal com o doppler tem ajudado a prevenir o câncer de ovário, que, embora bastante traiçoeiro, felizmente apresenta uma incidência pequena na população (brasileira), mesmo assim, aconselham-se esses exames anuais a partir dos 45. (http://www.mulhersaude.com.br)

“ULTRA-SONOGRAFIA TRANVAGINAL. Ao captar imagens minuciosas do útero e dos ovários, o exame é recomendado para a prevenção de câncer nesses órgãos.”
(http://matermaria.com.br/examesbasicos.php)

“Exames periódicos podem evitar câncer em mulheres. Aos 20 anos: Ultrassom pélvico ou transvaginal” (http://www.lavoisier.com.br)

“USG transvaginal: pode ser realizado anualmente após os 30 anos na rotina de exames. Importante no auxílio diagnóstico de doenças como endometriose na idade fértil, e câncer de ovário e endométrio após a menopausa.” (http://www.clinicaogeda.com.br/blog/)

“O indicado é realizar anualmente o papanicolau e a ultra-sonografia transvaginal, pois são essenciais para prevenção e diagnósticos de doenças. Esses exames têm a finalidade de identificar cistos, câncer e HPV. (http://www.alemdabeleza.com.br/)

“A ultrassonografia transvaginal de rotina tem ajudado a rastrear o câncer de ovário mais precocemente. Aconselham-se exames anuais a partir dos 45 anos.” (http://www.clinicasingolare.com.br/)

Etc.

Por que acontece isto no Brasil? Ou seja, porque se fazem estas recomendações em contra de qualquer evidência científica?

Tenho duas hipóteses:

1. A formação de muitos médicos brasileiros é deficiente
Não é a minha opinião só. Veja aqui uma parte de um artigo sobre o número elevado de casos de sobre-diagnóstico e “overtreatment” no Brasil:

“Para o diretor da Clínica São Vicente, Luiz Roberto Londres, o excesso de exames e procedimentos está relacionado à má qualidade do ensino:
A formação do médico está caindo. Uma consulta tem três partes: conversa, exame físico e prescrição de exames. Uma simples conversa de um médico bem preparado leva a 90% dos diagnósticos. Depois, há alguns exames, mas que são complementares.
Desde 2007, o Ministério da Educação informou ter retirado 1.100 vagas dos cursos de medicina de 31 instituições, por estas não terem preenchido os requisitos mínimos.”
(http://oglobo.globo.com/saude/exames-demais-risco-de-pecar-pelo-excesso-5976304)

2. Fatores económicos
Além da crença ingênua e errada de que cada vez mais exames de prevenção sejam também mais úteis para baixar as taxas de morte por câncer, os médicos brasileiros confiam demais nos aparelhos. Estes, como uma máquina de ultrassonografia, por exemplo, podem ser bastante caros (entre 20.000 e 200.000 € aprox.). Na atualidade, são quatro grandes empresas que controlam por volta de 80% do mercado internacional neste setor (Siemens, GE, Philips, Toshiba). Como os mercados norte-americanos e europeus, assim como o mercado japonês, já estão bastante saturados (também por causa das fortes críticas acerca do seu uso “preventivo” nestes países), estas empresas focam suas atividades cada vez mais em países emergentes. No Brasil, por exemplo, as compras bilionárias por clínicas da imagem e consultórios são bastante visíveis e precisam ser justificadas por meio do seu uso constante, seja qual for o benefício para os pacientes. Eis a triste realidade. No caso do ultrassom transvaginal: o que fariam todas estas clínicas se das suas “clientes” só ficassem as grávidas, as doentes e as mulheres de alto risco? Com certeza, prejudicaria-se uma boa parte do “negócio”. Eu acho que é tempo para refletir um pouco sobre o assunto.